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Sunday, April 5, 2020

Coisa? Que coisa?




Foto: Paloma Guimarães de Lima


Nos relacionamos sempre e tanto
Constituímos nossos corpos 
Somos um entre 
Entre ferramentas e argila.
Entre o banco e o giro do torno
A cadeira e o computador
Entre roupas e avental

O ceramista e o outro 

O pote troca de forma
é tão menos pote, mas potência
A pele se joga ao pote, 
que é tão menos esmalte
e mais tatuagem.
De entrega em entrega
não sei o que é pote ou pele
Coisa? Que coisa?


Sunday, March 29, 2020

O Atelier e a Ceramista

25 de Março de 2020


Geralmente estou sentada lá do outro lado. 
Mas neste momento, sentei na escada e 
fiquei pensando sobre este espaço. 
O click foi registro de algo... 
Este espaço de reflexão e fluxo, de criação, agrega. 
No momento, estamos sós, ele e eu. 
Calmo, tranquilo... as vezes bagunçado, e outras, 
limpo e organizado, esta se misturando ainda mais... 
Não sou uma identidade. Sou um híbrido, múltiplo. 
E meu atelier também.
 Acolhe almoço de família, meus cachorros dormem enquanto trabalho, lugar de consertar coisas outras de minha casa, lanches para visitas amigos, ceramistas, alunos, curiosos... 
O atelier é a minha casa/mundo. 
É completamente contaminado por multiplicidades, 
expressões e práticas. E agora? 
Seus excessos e retrações, encontros e falhas, faltas, 
programações e operações, em mim e em minhas peças... sentidos. 
Invenção e execução se misturam.  
Saber/fazer/ pensar/sentir.
O atelier de cerâmica reflexivo. 
A ceramista reflexiva. 
Para o que nos preparamos?
.
.
.

Quinta-feira, 12 de março de 2020, última aula, antes do Covid19.

Wednesday, January 22, 2020

Os fornos e suas atmosferas

Vidrado de cobre, em queima de forno elétrico, 1.223°C.


Os fornos e suas atmosferas


Oxidante ou redutora? O que isso quer dizer?


As massas e os vidrados, durante a queima, sofrem influência da atmosfera do forno. Esta pode ser neutra, oxidante ou redutora, dependendo do forno utilizado. Você já deve ter ouvido falar disso. Mas você sabe o que isso quer dizer? 

Para entendermos o que se passa em um forno elétrico, a primeira coisa é entender que a corrente elétrica consiste no movimento ordenado de elétrons que é formado quando há uma diferença de potencial – ou seja, tensão elétrica – em um fio condutor. Esse movimento no material condutor fica sujeito a uma oposição que é conhecida como resistência elétrica.

A física postula que a resistência (conceito físico) é a eficiência que um corpo tem de dificultar a passagem elétrica, que resulta, na grande maioria das vezes, em liberação de calor, é dai que advém o nome de resistência ou resistor.  Resistência ou resistor, no caso, são aqueles  "fios" em espiral presentes no interior dos fornos elétricos para cerâmica. Estas resistências são constituídas por diferentes materiais de características especiais, que são definidas de acordo com a temperatura e potência que elas vão dissipar, como ligas metálicas quando falamos dos fornos elétricos para cerâmica, metais puros presentes nas resistências de lâmpadas antigas, resistências de cerâmica como utilizadas nas subestações de energia elétrica, carbono como nos circuitos eletrônicos etc. Ao ligar seu forno, a corrente elétrica aquece a resistência (material) por oferecer resistência (conceito físico) à passagem desta corrente aplicada.

O ar que respiramos está composto por 75,5% de nitrogênio, 23,2% oxigênio e 1,3% de gases inertes e hidrogênio. Temos, portanto, uma atmosfera naturalmente oxidante, ou com abundância de oxigênio. Na queima elétrica, a atmosfera, ou seja, o ambiente dentro do forno, é sempre neutra ou oxidante, já que as resistências transformam a energia elétrica em energia térmica sem a necessidade de consumir o oxigênio, que se mantém presente durante todo o processo da queima. A queima se dá por radiação térmica, aquecendo os corpos cerâmicos no interior do forno até o nível que as transformações químicas acontecem.

Nos fornos a gás, a lenha ou a óleo, a transmissão de calor se dá através da combustão (lenha, butano, propano, óleo diesel etc.) Para que haja combustão é necessário que haja um combustível, por exemplo: carvão, madeira, diesel, gás metano. Isto é, um material oxidável que será consumido ao reagir com o oxigênio nas condições apropriadas.

O oxigênio é o mais comum dos comburentes, este ingrediente é necessário para a combustão. Comburentes são elementos fortemente oxidantes  e sua quantidade regula a intensidade da chama. Além do oxigênio, outros elementos como o enxofre, cloro e flúor, também são comburentes.

Quando queimamos à gás, à diesel, à carvão ou à lenha, o carbono contido nestes combustíveis se combina com o oxigênio para produzir a reação química de combustão, e os produtos desta reação são calor e dióxido de carbono.

Para que a combustão aconteça, precisamos também de uma fonte de energia, uma ignição ou uma faísca. Depois que a reação inicia, a energia liberada na forma de calor fornece a energia necessária para que a reação tenha continuidade, até que o combustível ou comburente (oxigênio) se consumam.

Se não há oxigênio suficiente durante a combustão, alguns carbonos livres são liberados (a popular fumaça preta que sai da chaminé dos fornos de cerâmica), assim como monóxido de carbono. E o oxigênio está não apenas no ar, mas nas paredes das peças cerâmicas, nos vidrados ou nas paredes do forno.

Nas elevadas temperaturas destes tipos de fornos, o monóxido de carbono é quimicamente ativo e irá obter oxigênio de qualquer fonte disponível, retirando o oxigênio ligado aos óxidos metálicos presentes no vidrado e mesmo nos corpos cerâmicos, alterando suas características químicas e produzindo efeitos variados nos vidrados e escurecendo o corpo cerâmico. A este tipo de queima damos o nome de queima redutora. O controle da redução, ou seja, diminuição do oxigênio na atmosfera do forno, fica ao encargo do ceramista, que a controla de acordo com o objetivo da queima.

Um bom exemplo prático do efeito dessas duas queimas é o óxido de cobre, que, em atmosfera redutora, pode oferecer os vidrados (ou esmaltes) vermelhos. Já nas queimas oxidantes, além do verde, nos oferecem os vidrados de cor azul turquesa. Em ambos os casos, é importante notar que a composição do vidrado base precisa favorecer o surgimento de tais cores. O que não impede que um forno a gás produza um azul turquesa, ou um forno elétrico um vermelho de cobre. Novamente, é o ceramista que irá determinar, de acordo com seus objetivos.

Alguns estudos apontam que a queima redutora pode fragilizar algumas ligações moleculares nos corpos cerâmicos, mas nada exatamente significativo, as implicações são irrelevantes, e não cabe me estender mais aqui. Eu me preocuparia muito mais com a emissão de gás carbônico na atmosfera, mas hoje as tecnologias cerâmicas evoluem e existem fornos por combustão que não emitem fumaça, sendo assim é uma questão de responsabilidade do ceramista da ordem do comprometimento, de trabalhar com uma energia limpa, o que implica em pesquisa.

Em suma, não há uma atmosfera melhor ou pior que a outra, são fenômenos que se constituem de forma diferente. Cada atmosfera tem a sua beleza e oferece uma enorme gama de possibilidades, dependendo apenas dos estudos e dedicação do ceramista em conhecer e tirar o melhor proveito do forno que tem em mãos, ou que almeja ter.

Bom trabalho e lindas criações!
Acácia Azevedo.


Sunday, June 18, 2017

O torno, uma espiral infinita de possibilidades.

Lili, Tati, Estela, Mari, Flávia e Patrícia.
Turma de torno, quintas das 9 às 12h, em Vinhedo.
Informações: acacia10@gmail.com


Exigente, quando se quer atingir qualidade, o torno também pode ser cruel com os que se aventuram em seu giro. Eu senti isso. 
No início nos faz de João-Bobo, jogando-nos de um lado para outro. É quase inevitável. Ele nos sacode e pergunta, "Aonde você quer ir?" E insiste..."Tem certeza?" Nos faz vacilar...

Não se aprende a tornear apenas com o racional, é o corpo que aprende, é a inteligência motora que atua e ela tem seu tempo. Um tempo de desafio, um tempo que nos leva a duvidar de tudo, de nós mesmos, que pode nos levar por atalhos falhos, truques desonestos, um tempo que provoca nosso melhor ou nosso pior. Sempre a nos perguntar, “Do que você é feito?"

A persistência teima em nos abandonar, pois conquistas sempre podem ser adiadas, deixadas de lado. Mas, como no esporte em que o corpo precisa de treino, é a mente a mais desafiada.

Você é força? Ou você é habilidade? Você é rigor? Fluxo? 

Você observa? Você persiste? Você vai desistir?"

O que você está evitando? O que você quer? Quem é você? 

Sim, parece que tudo é sobre nós e nossos desejos. E para cada resposta, o torno nos trará uma surpresa. Uma risada ou uma angustia? Um presente ou um castigo? Você decide.

No entanto, o importante é se manter ao torno, a energia que geramos nestes momentos é mais importante do que qualquer outra coisa na manutenção do que somos e o que desejamos na vida e na cerâmica. Não há tempo para nos perdermos em desculpas ou justificativas. Precisamos praticar. Precisamos fazer. E rir, rir muito de nossos desalentos!

O torno enfeitiça ao oferecer a perfeição para aqueles que estão determinados a domar os efeitos da força centrípeta. 

Sobre o que será isso?

Como um ator que sobe ao palco a cada noite e nos faz crer ser sua primeira apresentação, o ceramista conquista a habilidade de repetir várias vezes a mesma forma, sendo cada uma delas única.

É a centralização que nos levará a obter peças com paredes uniformes, a harmonia entre o que se percebe no interior da peça e o seu perfil externo, equilíbrio.

Estou falando mesmo de peças?

O interior, ou como gosto de chamar, a alma da peça; é tocada apenas durante sua feitura. Não recebe cortes ou desgastes depois de pronta, é conquistada pelas mãos e ferramentas enquanto a peça nasce.

Sim, peças nascem... E temos a oportunidade de renascer em cada uma delas, a cada desafio uma alteração subjetiva se dá.

O torno quer mesmo nossa quilha, que estejamos em uníssono com ele, numa espécie de mágica material da presença. Aí as pequenas conquistas, quase imperceptíveis, começam a se acumular e formar sentido.

A leveza e frescor do que se torneia é alcançado ainda quando a argila escorrega por entre nossas mãos; é ali, no modelar, que definimos o único do que torneamos. Depois vem o acabamento.

Ái o acabamento! Pode parecer banal, mas não. O pé da peça, quando falamos de utilitários por exemplo, confere personalidade. É um detalhe que mais parece código, uma linguagem entre pares que dialogam. Acabamento é encontro entre o que foi feito, o que precisa ser visto e o sentido. Acabamento é uma palavra muito simples para o ato de esculpir, esculpir a massa, a peça, o movimento, o tempo, os nossos desejos.

O aprendizado do torno é uma peça teatral de infinitos atos.  E como um ator que se prepara para que um personagem ganhe vida, mas em cena aqui e ali descobre algo novo sobre o mesmo. O ceramista a cada giro ganha repertório, a cada desafio apura sua expressividade e tem a chance de fazer nascer o artista ceramista. E ai... E ai o torno passa ser apenas meio, ferramenta, que continua nos encantando em sua dança dervixe.

E neste momento, ele é suporte que não se atem apenas aos quesitos técnicos.  Novamente lembra o teatro, onde existe uma peça, um mesmo texto, mas isso não impede que cada ator coloque de si o que só seu universo pessoal faz possível, que coloque algo que o autor se quer vislumbrou, que improvise, que crie.

O aprendizado do torno é um tormento entre desequilíbrios emocionais e embates do racional, entre um querer já e uma negociação com o adiamento, um aconselhamento permanente entre o “eu” que faz e o “eu” que fracassa miseravelmente, pois o “eu” é tudo que menos interessa... É preciso transpor momentos, aprender a observar, constituir camadas de entendimento, integrar novos gestos, novas perspectivas, novos eus. E só depois das fases iniciais ultrapassadas, alcançamos o centro dele e desses tantos eus em nós e algo do subjetivo se altera.

Bem lembro, faz tempo, mas continua assim...

Enquanto o ascender da massa em espiral constrói formas e materializa um novo sonho, damos mais um passo, irrompendo regras em voo de liberdade, liberdade de criação, apenas mais um ato que se multiplica...

Gratidão professoras Estela e Hideko, por me emprestarem suas mãos para a construção de minhas bases no começo de tudo, bases que vêm se ampliando lentamente. Obrigada por confiarem e acreditarem em mim quando nem mesmo eu achava que seria possível. Obrigada por cada vez que vocês, das mais diversas formas disseram: siga, coragem, você está indo bem! Continuo nesse movimento, sigo em todos esses giros, sou apenas uma aprendiz que aprendeu que é possível prosseguir. E só isso, já é bastante. Espero inspirar outros tanto quanto vocês me inspiraram!

 

Por Acácia Azevedo.


Saturday, April 16, 2016

Thoughts



Muitas de minhas cerâmicas, vão parar em nichos especiais em seus novos lares. Lugares de destaque. Apesar de, como já disse, preferir que eles façam parte da dança cotidiana. O que recentemente me levou a ouvir: "essa caneca me distrai, preciso de tempo para tomar café nela, por isso ela fica ai, para me lembrar que preciso de um tempo para mim". 

Curioso? Seria... Se não fosse este olhar que eu desejasse, um modo de interação diferente com um objeto cotidiano, uma gentil provocação pela qual não se possa passar desapercebidamente.

E é um pouco sobre isso e muito mais, que esta importante palestra de Pete Pinnells, no NCECA (Kansas City, 2016) fala. Foi um privilégio estar presente! 
E é com alegria que compartilho com vocês e chamo os colegas a repensarem velhos conceitos e preconceitos.

A evolução no campo do pensar e elaborar o fazer cerâmico necessita de avanços entre nós ceramistas. 

E convido aos apreciadores da cerâmica, para se disponibilizarem a ampliar seus níveis de exigência, conhecimento, e desta forma continuarem dando apoio para a comunidade cerâmica brasileira.


Segue o link, assista: 






Friday, March 20, 2015

Marianinha

Marianinha Salvagnini Hitner
Pianista, pintora e escultora.
Pianist, painter and sculptor.


A primeira pessoa que me incentivou na cerâmica.
"Você tem que gostar e fazer."
Segui as instruções a risca!

The first person who encouraged me in ceramics. 
"You have to like and to do." 
I followed your instruction to the letter!

Sunday, April 4, 2004

O Pote




O pote de cerâmica 
feito para conter alimento 
no aconchego da cozinha, 
sofre um deslocamento repentino. 
E vai parar, em destaque, 
na prateleira da sala. 
Como? Por que?

A.A.